15.1.85
rua do forte
levantei-me cedo com a chuva fustigado
a memória dum corpo que se esvaiu no sonho
aqueci o café ouvi as notícias da manhã
sobe um lamento que me percorre os ossos
cansado de luz o mar devolve-me a frescura
do amigo ainda à pouco deitado
a meu lado o rosto sonolento
sobre o peito a mão um sorriso
e o mundo parece menos cruel
contigo ausente agora tão perto de mim
*
pergunto-me se mereces este poema
pergunto-me se o escreverei
contigo dentro de cada palavra
e de querer eu mesmo ser poema
e não poeta
para que pernoites ao menos uma vez
dentro do meu corpo imaginado
Al Berto

