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1 de janeiro de 2012

Avó



Avó, sabes, quando estavas em África a cuidar dos teus outros netos e da tua outra filha, era à tua irmã que chamava avó? Não era de propósito, mas escapava-me sempre. Quando me pedia para ir buscar os tomates para a salada, - Sim avó. Ou quando lhe perguntava se o esquentador estava ligado para tomar banho. Tentava sempre corrigir, Tia, mas os seus olhos brilhavam, os olhos da tua irmã que nunca teve filhos. Eram olhos pequenos e muito vivos.
Avó, às vezes a tua irmã irritava-me, a sua mão tremia e não conseguia fazer as tarefas diárias, corriqueiras, irritava-me porque eu era muito jovem, não compreendia a vida. Para todos os que são jovens, as fraquezas são inadmissíveis. Para o fim, já não lhe reconhecia os olhos e desviava o olhar. Olhos pequenos, perdidos.
Avó, tenho saudades das tuas mãos. São tão bonitas, dizia-te eu repetidamente, são tão velhas e com manchas, respondias.
Os dedos finos, as unhas perfeitas, sobre teu colo, tão lindas as tuas mãos.
Avó, tu não tremias a mão, mas não estavas. Chamava avó à tua irmã.

As tuas mãos, avó.



26 de novembro de 2010

Man under the sea


Se alguma vez, nos salões de um palácio, sobre a erva de uma vala ou na solidão morna do vosso quarto, acordardes de uma embriaguez evanescente ou desaparecida, perguntai ao vento, a vaga, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio, vos responderão: São horas de vos embriagardes! Para não serdes escravos martirizados do tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem cessar! Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha. Mas embriagai-vos! Deslumbrai-vos!

Baudelaire

23 de outubro de 2009

Big Bird In A Small Cage


(...)
Cala-te, voz que assevera
e insinua
que a primavera
a pintar-se de lua
nos telhados,
só é bela
quando se inventa
de olhos fechados
nas noites de chuva e de tormenta.

Cala-te, sedução
desta voz que me diz
que as flores são imaginação
sem raiz.
(...)

José Gomes Ferreira




28 de julho de 2009

Luscious Life


Um astro
Ouve a longa incoerência da palavra e a memória do sangue que se apaga. Ouve a terra taciturna. Tudo é furtivo e as sombras não acolhem. Nenhum jardim de segredos. Nenhuma pátria entre as ervas e a areia. Onde é que nasce a sombra e a claridade?

Eis as vertentes da terra árida e negra. Quem reconhece o equilíbrio das evidências serenas? Estas palavras têm o odor de portas enterradas. Como dominar a desmesura da ausência e a vertigem? Como reunir o obscuro em palavras evidentes?

Escuta, escuta a longa incoerência da terra e da palavra. Ao longo da distância murmura a perfeição monótona de um mar. Num pudor de esquecimento um astro se aveluda em denso azul na corola do silêncio.

António Ramos Rosa